Sem verba para restauração, prédio que já foi cadeia e hoje abriga a Prefeitura de Dores do Indaiá tem problemas como infiltrações e rachaduras. Moradores pedem providências
20 de maio de 2013
Dores do Indaiá – Refém das infiltrações, prisioneiro de gambiarras e condenado à degradação se obras de restauro não forem executadas com urgência. Assim está o prédio da Prefeitura de Dores do Indaiá, na Região Centro-Oeste de Minas, erguido em 1928 para ser o fórum da comarca, mas, ao contrário da ideia inicial, se transformou numa das primeiras cadeias públicas regionais de Minas no período republicano. Mantendo a estrutura e imponência originais, com quatro colunas sobressaindo na fachada em estilo neoclássico, a construção de dois andares está à espera de projeto de preservação e dos recursos, estimados em cerca de R$ 1,5 milhão. “Não podemos perder essa joia arquitetônica, pois outras já se foram. É fundamental restaurar a edificação e dar-lhe um destino cultural”, diz a professora aposentada, cronista e autora de livros Maria das Dores Caetano Guimarães, conhecida como dona Branca.
Localizado no Bairro Rosário, na entrada da cidade de 14,5 mi habitantes, o prédio causa impacto visual, com seu porte grandioso e palmeiras na frente. Mas basta olhar com atenção para ver os problemas graves que ele apresenta. Do lado de fora, a pintura no tom rosa está bem estragada, com destaque para as colunas danificadas e, no forro, aparecem as ferragens no concreto. Dentro, há problemas de cima a baixo. O mofo, causado pelas goteiras, deixou preto e descascado o teto de vários cômodos, enquanto as instalações elétrica e hidráulica carecem de troca imediata. Num dos banheiros, os fios estão soltos, numa cena que, de imediato, causa espanto e sinaliza perigo.
“A prefeitura tem interesse em recuperar o prédio, mas não tem verba”, lamenta o chefe do Departamento Municipal de Cultura, Evamir Araújo de Sousa. Ele adianta que, até o fim do mês, será aberta a licitação para contratar a empresa que fará o projeto de restauro. “Depois, vamos correr atrás do patrocínio, via lei de incentivo”, afirma. Ele faz questão de mostrar cada detalhe, como as portas com grades e chapas de aço; janelas que já tiveram as barras serradas; o pátio onde os presos ficavam, depois transformado em jardim e atualmente cimentado; e o piso original de ladrilho hidráulico decorado, além de algumas adaptações para receber os servidores. “A construção não foi feita para ser sede da municipalidade. Então, as nossas salas de trabalho ficam nas 15 antigas celas. Aqui ficaram presos muitos perigosos e de fama nacional, entre eles Ramiro, o Bandido da Cartucheira, que espalhou o terror na década de 1970 no estado. Era a prisão de segurança máxima da época. Quando chove, os funcionários são obrigados usar o guarda-chuva ao transitar na varanda que dá para o pátio, pois não há marquise protetora”, conta Evamir, ressaltando que fala sem exagero.
Caminhando pelas dependências é que se vão vendo as mazelas e a beleza escondida. Logo na entrada, há uma escada de mármore com corrimãos dourados, fabricados na Inglaterra na década de 1920, e dá pena ver que já existe vegetação brotando em buracos na pedra encardida. No alto da escadaria estão um vitral verde e branco e um lustre original, embora com lâmpadas fluorescentes. A espessura das paredes é de chamar a atenção e a funcionária do setor de convênios e prestação de contas Valdira da Silva Lopes, trabalhando há 23 anos no prédio, enaltece a importância da construção: “O valor cultural é alto e a estrutura, sólida. Temos que conservá-lo”.
CORRÓ No primeiro andar, num canto perto do pátio, Evamir mostra um cubículo, tipo solitária, que funciona hoje como depósito de material elétrico. Ali era o corró, um tipo de cela na qual a pessoa ficava temporariamente detida, por prisão em flagrante ou cumprimento de determinação judicial, até sua remoção definitiva à unidade prisional. O apelido corró vem de “presos correcionais”, gente detida na rua para averiguação, embora o nome popular tenha se confundido com cela-castigo. Com a Constituição Federal de 1988, tal sala, mal iluminada e sem janelas, deixou de existir, mas o termo persistiu.
Durante os 55 anos em que funcionou como cadeia pública, segundo Evamir, o prédio não teve sirene, apenas um sino para avisar aos moradores quando ocorresse fuga de presos. Mas, entre 2007 e 2012, na direção do Colégio São Luiz, Evamir achou melhor levar a peça para a escola, pois teria melhor serventia para avisar alunos e professores sobre horário do recreio, término das aulas etc. O prefeito, Ronaldo Costa, informa que está muito empenhado nas questões culturais e na preservação dos bens públicos, dando “apoio irrestrito a todas as ações nesse sentido”.
Memória
De arraial a cidade
O nome Dores do Indaiá está relacionado à devoção a Nossa Senhora das Dores, cuja imagem veio de Portugal, no século 17, com dona Leonor Luíza, mulher do coronel José Luiz Sayão, dono de uma sesmaria, segundo dona Branca. Já Indaiá tem duas versões: refere-se ao Rio Indaiá, afluente do lado direito do Rio São Francisco, e também à palmeira andáia ou indaiá. A história do município, que já pertenceu a Pitangui, começou no século 17, quando o primitivo arraial, Boa Vista da Serra, foi fundado pelo sesmeiro Domingos de Brito, que tentava chegar às minas de ouro de Goiás, mas foi impedido pelos índios que habitavam a região. Mais tarde, os irmãos da família Costa Guimarães, tendo à frente o capitão Amaro, obtiveram quatro sesmarias e deram início ao povoamento, construindo a primeira capela do arraial dedicada a São Sebastião, embora a paróquia fosse de Nossa Senhora das Dores. Em 1850, o arraial foi elevado a vila e, no ano seguinte, o território foi novamente incorporado a Pitangui. Em 8 de outubro de 1885, pela Lei 3.333, Dores do Indaiá foi elevada à categoria de cidade.
Fonte: EM