DORES DO INDAIÁ
16º MIN     30º MAX

Dona Branca: uma escritora que transforma as sobras da vida em docilidades, bordados e afetos

Toda cidade deveria ter uma pessoa como a escritora mineira Maria das Dores Caetano Guimarães, ou melhor, ?Dona Branca?, porque sua visão afetuosa da vida transforma a rotina diária, em realidade suportável e terna.

Postado em: 13 de abril de 2017

Por Ana Cláudia Vargas

Assim, por maiores que sejam as tristezas, ela consegue retirar de algum lugar misterioso, uma docilidade que nos encanta e nos faz acreditar que o bem ainda resiste. Professora aposentada que ainda leciona por amor à arte de ensinar; bordadeira e inventora de ‘embondos’ (*) como ela diz,  nesta conversa ela nos conta um pouco da sua história, fala de trabalho, amores, filhos, velhice e,  enfim, da vida que nos envolve a todos, em tramas que não nos deixam ver que o tempo está passando até que ele se torne escasso. Mas é possível encarar isso sem tantos embates, como ela nos mostra.

‘Branca’ nasceu em  outubro de 1937, em Dores do Indaiá, centro-oeste mineiro, mas aos dois anos se mudou  para outra cidade de nome poético: Estrela do Indaiá. Ali seu pai abriria uma loja daquelas que vendem de tudo um pouco: tecidos, ferragens, querosene, armarinhos, chapéus, botinas, óculos de grau, enfim, um ‘negócio de variedades’ como ela diz. Mais tarde ela faria o primário no Grupo Escolar “Francisco Campos”, o único do arraial, mas já havia sido alfabetizada pelo pai que era também professor rural e ia de fazenda em fazenda, carregando uma lousa pequena e giz de alfaiate…. É ela quem nos conta “ Tive infância e  juventude dignas de serem lembradas: se eu focalizar uma lembrança isolada de cada uma dessas fases, quebraria o encanto… Uma lembrança está interligada à outra e não vejo nenhuma que possa ser mais ou menos importante e querida. Mesmo as que foram menos alegres ou tranquilas têm o seu papel na cadeia de lembranças, serviram para ligar as emoções, para me fazer amadurecer, para encontrar meus caminhos e habilidades. Enfim, minha infância é uma única lembrança linda e minha juventude é uma única lembrança encantada”.

Dona Branca, como nasceu o interesse pelos livros? Se lembra qual foi o primeiro livro que leu ou o mais marcante?

Meu pai tinha uma boa biblioteca e assinava muitos jornais e revistas. Era correspondente de banco, tinha grande atividade intelectual, pois, todas as correspondências eram redigidas por ele, todo o serviço  de escrita da loja era feito por ele. Também, era muito procurado para escrever cartas, ofícios e discursos para todos os motivos. Lia muito e, à noite, invariavelmente, escutávamos o barulhinho das folhas de jornais sendo passadas por ele. A gente, àquela época, não tinha televisão, telefone, e a energia elétrica era tão precária que, só depois das 22 horas, ouvia-se o rádio potente, entronizado na sala, ou então, usava-se o transformador, aparelho proibido, mas que era usado pelos felizardos que possuíam um rádio em casa.Então, tudo serviu de treino para a leitura: os bancos da igreja traziam os nomes de seus doadores escritos em letras grandes, e ali, a gente treinava bastante a leitura…. Assim, a gente aprendia a ler sem punição, sem castigo, com toda alegria em descobrir o mundo que os livros continham… Fui criada em meio de livros e papéis, letras, canetas, tinteiro, tudo que remetia ao hábito de leitura. Então, como não gostar de ler? A gente lia de tudo o que caísse em nossas mãos. Não havia bibliotecas nas escolas, os pais é quem abriam os caminhos da leitura para os filhos…  Aos 11 anos, já tinha lido muito, mas aconteceu um episódio que me marcou: mamãe me pegou lendo Mar Morto, de Jorge Amado, com linguagem picante para meninotas daquele tempo. Papai foi chamado para conversar comigo, quem sabe, me tomar o livro e mamãe teve uma surpresa com a reação dele: _Deixa, Fia, deixa a menina ler! Hoje ela vai ler com a cabeça de onze anos, vai aprender palavras novas, estilo novo. Mais tarde, ela vai ler o mesmo livro já com outro entendimento… Li esse e muitos outros assim, inclusive em francês, língua dominante na época. Meu pai era poliglota, autodidata, e nos ajudava nas traduções…

O desejo por ser professora tem a ver com o gosto pela leitura?

Claro! Eu ficava encantada com o que lia! E tinha pena de ter aqueles tesouros só para mim… Brincava de dar aula e contava mil histórias dos livros, com minhas palavras, inventava finais, diferentes, recitava poesias dos livros e era muito aplaudida em minhas aulinhas. Daí, a vontade de passar adiante as maravilhas que achava – e acho – nos livros; até hoje (isto) me acompanha. Ainda dou aulas particulares de português e literatura, apenas pelo gosto de ensinar. As aulas são absolutamente de graça. Penso que, os alunos é que deveriam receber de mim, tanta alegria eles me trazem, tanta juventude, tanta esperança.

Como foi o começo da carreira como professora? Hoje o magistério é pouco valorizado, o que a senhora acha disso?

Desde sempre queria ensinar, qualquer coisa que eu soubesse, mas… ENSINAR!  Gostava de ver a mudança que o aprendizado fazia em meus amiguinhos, desde o tempo dos guisadinhos, quando eu ensinava a fazer arroz, a picar couve bem fininha, a fritar um ovo… Eu não sei quem ficava mais feliz, se eu, a “professora de culinária” ou os aprendizes… Essa transformação – para melhor – me conduziu para o magistério, para as salas de aula. Também tive a sorte – sorte mesmo – de a Ana ‘da mamãe’, como chamávamos a meninota que ajudava a mamãe na labuta com os filhos pequenos, ser uma contadora de histórias fantástica! Ela era uma artista, fazia gestos, caras e bocas, afinava a voz, se transformava em mil personagens… De verdade, Ana, com suas histórias, na maioria inventadas, me fascinou a vida toda. Eu tentei repetir a Ana nas salas de aula, encantava meus alunos com as imitações da Ana… Os costumes da época também me levaram a esta escolha. Aliás, praticamente, não havia escolhas para as moças de minha geração: ou se preparava para ser boa esposa, mãe e dona de casa, ou ia dar aulas. Eu me preparei para as duas opções. Sabia costurar, bordar, fazer tricô, cuidar de meus irmãos menores, fazer chazinhos, mingau para as mamadeiras, sopinha, passar roupa, cuidar de plantas. Mas também, sabia namorar e fiz, bem nova ainda, a minha escolha: aos quinze anos comecei o namoro que culminou em noivado e casamento, depois de quase oito anos. Esse longo prazo se deveu  ao fato de termos os  pés no chão… Éramos novos, não tínhamos profissão definida… Perdi meu pai aos treze anos; mamãe ficou com muitos filhos pequenos – éramos  sete_ e o mais velho tinha apenas 16 anos. Papai deixou uma grande herança cultural para nós : o amor aos livros. Mamãe continuou  a trabalhar essa herança, embora as dificuldades fossem enormes. Com essa estrutura, nada me fez perder o foco nos estudos. Como Estrela só tinha o curso primário, vim para Dores, onde fiz o Ginásio,  na então famosa, Escola Normal. Fiquei em casa de meus tios e, quando eles se mudaram  para Belo Horizonte, fui também. Lá, fiz o Magistério, no Instituto de Educação – escola modelo de Minas Gerais – terminando o curso em 1957.  Voltei para Estrela, lecionei por dois anos. Fui nomeada e só então – em 1958 – oficializamos o namoro,  com o noivado,  como era de praxe na época . Em 1959, me casei com meu primeiro e único namorado, dorense também.  É com pesar que vejo o Magistério  tão desvalorizado! A razão? É a famosa troca de valores morais: hoje, não se valoriza o fazedor de cultura,  o professor. Hoje é valorizado o poder. Quem tem poder, está acima dos pobres mortais… E, sabemos que, para se ter poder, não é preciso ter cultura… E pensar que para se ter pessoas cultas, há que se ter professores: ninguém vira jornalista sem passar por salas de aula, nem advogado, médico, cientista, engenheiro… O governo precisa pensar na necessidade de se ter bons professores , dando-lhes o necessário para realizar seu trabalho e um salário digno para sobreviver, sem gastar seu tempo em outros trabalhos para aumentar sua renda.

“É com pesar que vejo o magistério  tão desvalorizado! A razão? É a famosa troca de valores morais: hoje, não se valoriza o fazedor de cultura,  o professor. Hoje é valorizado o poder.”

 Quando se casou foi difícil conciliar a carreira e a vida doméstica?

Eu fui acostumada a fazer as tarefas de casa e de escola em meio a muitas crianças, a muito barulho. Abaixo de mim, em minha casa, eram quatro irmãos, barulhentos, e que precisavam de muita atenção. Nesta época, Ana já era a cozinheira da casa e nós nos virávamos sozinhas com a meninada. Estudante, em Dores, ajudava minha tia nas tarefas domésticas e cuidava dos dois filhos dela, fazendo o dever de casa com eles enfim,  a casa da tia Helena  era uma continuação da casa de meus pais. As salas de aula também não me atrapalhavam, estava muito acostumada com crianças e sempre gostei muito de tê-las por perto. Assim, com o casamento e a chegada dos filhos, foi a continuação de tudo o que já tinha vivido e aprendido. Com a diferença de que, uns eram alunos, outros irmãos, outros, primos e, agora, filhos. Sempre dei um jeitinho de conciliar tudo: nunca me atrapalhei muito, era uma rotina para mim.Quando já tinha meus seis filhos, uma escadinha de oito a  um ano, fui fazer a faculdade, e só consegui ter tempo na quarta tentativa: eles eram pequenos, precisavam muito de mim, não tinha coragem de deixá -los. Comecei na Federal, em Belo Horizonte, cursando Pedagogia, e só pude frequentar um mês, porque meu marido não conseguiu a tão sonhada transferência do banco para lá. Assim, tentei mais três vezes, uma em Divinópolis, sem poder continuar e, na última, com um esforço de todos nós, consegui fazer a Faculdade de Letras, na Pontifícia Universidade Católica, Campus de Luz , cidade vizinha a nossa. Ali, meu caçula estava com 10 anos… E, nesta fase, lecionava nos três turnos, sendo que, no da tarde, tinha menos horários, o que facilitava bem.

Conte porque começou a escrever crônicas. Por que a senhora  sentiu a necessidade de ‘falar’ da vida para outras pessoas?

Escrever foi a forma que encontrei para contar para o mundo todas as coisas lindas que eu via e ouvia com as crianças, com as pessoas. Aliás, pessoas sempre foram minha maior motivação para ouvir e escrever. Observava, desde pequena, as pessoas que me cercavam, ouvia suas queixas, suas receitas de vida, seu jeito de falar… Não podia deixar aquilo tudo se perder… Então, registrava tudo em um diário- menino que, infelizmente, foi consumido em pequeno incêndio no cômodo onde guardava as lembranças de meus filhos – desenhos, exercícios, o caderno que eu fazia para cada um e… o diário. Quando fui fazer o Curso de Datilografia, a professora, D. Maria da Conceição Camargos – D. Tatão_ passou-me um dos últimos exercícios: escrever e datilografar duas cartas, uma comercial e outra, particular. A particular foi dirigida a meus filhos, falando do meu encantamento por eles e como eu sentia que ficaria eternizada em cada um, eu o BEM (o marido Ricardo). Ela se comoveu com minha carta, ficou impressionada como eu escrevia diferente e estimulou-me a publicar tudo o que eu escrevia. Fiquei meio desconfiada, meio sem coragem, mas, fui adiante e comecei a publicar minhas crônicas no jornal da cidade:  O LIBERAL.   Durante muitos meses, enviava minhas crônicas anonimamente, com o pseudônimo de MARIA. Com a aceitação dos leitores, identifiquei-me e nunca mais parei! Não por acaso, minha primeira crônica publicada se Chama MEUS FILHOS E DEUS, uma ternura, um encanto…

A senhora acha que escrever é uma forma de ‘terapia’?

Sabe, nunca fiz terapia, porque não tinha nem tempo de pensar nisso. Acho que, se eu procurasse um terapeuta, ele é que iria para o divã… Mas, sei que uma terapia me ajudaria a ser menos elétrica, menos trabalhadeira, menos fazedeira de mil coisas ao mesmo tempo.  Embora não pareça, sou agitada, sei que seria um prato cheio para os especialistas em velhas que não se lembram  de parar…Vivo arranjando ‘embondos’ pra fazer. Depois de aposentada no estado, fiz concurso para o município e  fiquei no cargo de secretária até fazer 70 anos. Não queria sair, mas a lei me obrigou. Continuo dando aulas em casa, para qualquer aluno que precise, bordo no Clube Social de Beneficência  de Dores do Indaiá; faço tricô, crochê, escrevo, vivo inventando moda…Mas, tudo isso, com a ajuda de minha filha adotiva, Vani, que cresceu aqui em casa, namorou, casou, teve os dois filhos, mudou-se para a roça e ainda continua comigo. Sem ela, não haveria uma MARIA tão elétrica. Porque tenho sérias limitações visuais e motoras que me impedem de fazer outros serviços domésticos. Vani vem todos os dias, alegra nossa vida… Quando ela vai para sua casa, após terminar o serviço, a casa fica tristonha… Aos domingos, faço um almoção pra família toda, filhos, noras, genros e netos… É o jeito de eles se encontrarem… Senão, o trabalho e a distância os tornam até estranhos uns para os outros… (Aí, é a folga da Vani e eu viro cozinheira, função de que gosto muito!)

Quais são seus autores prediletos? E um livro de cabeceira?

Leio muito, na calada da noite, porque, durante o dia, não tenho tempo… Meus autores prediletos são mesmo os clássicos da Literatura Brasileira; mas adoro o Autran Dourado, o Mário Quintana, o Carlos Drummond de Andrade, o Manoel de Barros , a Adélia Prado, Cecília Meirelles, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Raquel de Queirós, Mário Palmério  e os dorenses, meus conterrâneos: Emílio Moura, Carminha Gouthier, José Ribeiro Machado (meu concunhado), José Oswaldo de Araújo…(Claro, sem falar nos antigos, Machado de Assis, Olavo Bilac, os poetas de toda Escola, com ênfase para Castro Alves). Mas, de verdade, raramente, um autor não me encanta! Livro de cabeceira? Não me aperta, menina. Às vezes, hoje gosto muito de um livro, daqui a uns meses, não gosto tanto… Acho que tenho fases, como a lua, também… Mas, nunca me esqueço de Como era Verde Meu Vale¹, do Confesso que Vivi², ambos de autores estrangeiros; do Vila dos Confins e Chapadão do Bugre do Mário  Palmério – acho que ele se inspirou em Dores do Indaiá e sua gente…  O pai dele, o engenheiro, Dr. Francisco Palmério residiu aqui com a família,  quando fez a planta oficial da cidadezinha que nascia, a convite de  Dr. Zacarias, médico e prefeito da cidade, em 1898.Coroando tudo isso, está o Érico Veríssimo, meu preferido de todos, todos, todos….

A senhora sente saudades do  passado? Se sim, de que fase especialmente?

Sinto muitas saudades do passado, porque, para mim, ele não se foi, ele é PRESENTE, ESTÁ VIVINHO EM MINHAS LEMBRANÇAS. O QUE NÃO É ESQUECIDO, NÃO É SAUDADE, É PRESENÇA.

Quando a senhora percebeu que a velhice realmente havia chegado? Em que idade?

Não percebi a velhice chegar em um dia especial. Ela veio devagarinho, tornou-se uma companheira, uma sombra… Ela chegou tão de mansinho que não percebi…. Muitas vezes, senti-me velha, aos  10, 15 ou 20 anos… Outras vezes , me senti  menina, tendo  meus 80 anos, 60, 50…Morri muitas vezes, mas precisava continuar vivendo, por meus filhos, meus irmãos. Sei que sou um ponto de apoio para eles, não podia me dar ao luxo de me entregar à tristeza. Aliás, acho que nasci meio brigada com ela, com a solidão. Elas não encontram espaço no meu coração e, ‘facinho, facinho’, a poesia me pega e eu vou passear com ela, de mãos dadas…Foi assim que revivi de muitas mortes pelo caminho que percorri: a perda de entes queridos, ficar sem o meu BEM, tudo isso me fez morrer um pouco.. Mas, por amor a eles, precisei continuar, para substituí-los na vida dos que ficaram comigo. Meu pai falava que eu devia me chamar era MARIA ALEGRIA, que meu nome nunca deu certo comigo: Maria das Dores.

Envelhecer ‘assusta’?

Eu não percebi que estava ficando velha de idade… Percebi sinais de velhice, mas fui me acostumando com eles no dia a dia: rugas, falta de equilíbrio, pés inchados, cabelos brancos, visão dupla…Nada foi de estalo. Não anoiteci nova e acordei velha! Anoiteci quase oitenta anos e acordei quase oitenta anos. A idade teve tempo de tecer suas marcas, mas não machucou nada. Só mudou minha aparência…E, de verdade, minha aparência não me assusta!

Como a senhora vê o passar do tempo?

Vejo o passar do tempo com naturalidade, não como um castigo. Como um acontecimento comum, como levantar todos os dias, respirar, piscar, pensar, dormir, sonhar. Enquanto tudo isso acontece,  o tempo está passando. Mas, Deus me livre de pensar – todos os dias – que estou indo, estou indo…Sei que estou indo, mas vou em boa companhia: o TEMPO, SENHOR DA VIDA… VOU INDO COM ELE, NAS SUAS ASAS… Passeando por lugares que só ele sabe e pode me levar… Deixo tudo em suas mãos… Sei que elas não erram o caminho…

Hoje, ao ver a família que construiu, os filhos, netos (bisnetos), a senhora sente alguma emoção especial?

Senti uma emoção especial, no dia em que eles nasceram… Hoje, eles são como o tempo: fazem parte de minha vida, são minha sombra, são minha continuação… Por eles, sei que serei eterna.Mas, sem algum deles, sinto-me como se faltasse um pedaço de mim: os olhos, os braços, as pernas, o coração…Como enxergar sem olhos? Como abraçar sem braços? Como caminhar sem pernas? Como amar sem coração? Meus filhos, netos e bisnetos são meus olhos, meus braços, minhas pernas, meu coração.

“Vejo o passar do tempo com naturalidade, não como um castigo. Como um acontecimento comum, como levantar todos os dias, respirar, piscar, pensar, dormir, sonhar. Enquanto tudo isso acontece,  o tempo está passando. Mas, Deus me livre de pensar – todos os dias – que estou indo, estou indo…”

Para a senhora como é envelhecer em um mundo cada vez mais moderno e no qual os mais jovens parecem ter, cada vez menos, gosto por coisas como conversas (sem WhatsApp e celular) leituras e etc.? A senhora  se sente muito distante disso?

Acho até engraçado o jeito dos mais novos conviverem com os velhos. Mas entendo a distância entre meu tempo e o deles. Eles conversam com outro mundo, nós, os velhos, somos seres que habitam esse outro mundo. Às vezes, descobrem que lá, a gente tem muita coisa em comum como eles: sonhar, amar, ter esperanças… Prefiro os jovens bem modernos do que os que estão entre os dois tempos: eles não são jovens, adolescentes e nem são velhos, idosos. Aí, não sabem como lidar com esse pessoal do outro mundo: arranjam um jeito baboso , babujento, meloso e artificial para conversar com os velhos, um jeito desconfiado de lidar conosco. Pensam que somos de louça, que somos bobocas, que não entendemos direito as coisas… Mas, tiro proveito disso e rio muito em casa com tudo o que acontece no dia a dia: Ninguém pergunta, como antes, se estou BOA. Só perguntam se estou BOAZINHA…  Concluo que, para eles, velho nunca pode estar bom por inteiro, só pela metade ou menos da metade… Também, nunca se dirigem a mim, quando estou acompanhada de qualquer pessoa, até de crianças. Fazem de conta que eu não estou ali: dirigem-se a quem me acompanha e fala: entrega pra ela, leva para ela, mostra pra ela…  Descobri que meu nome é ELA… (Fico rindo sozinha, pensando: coitadinha, ela não sabe que eu sei escrever no computador melhor do que ela, que sei escrever poemas, que sei cozinhar e costurar, ela pensa que eu não existo…) Fico meio tristinha, mas passa logo…

Procuro diminuir a distância entre mim e os jovens. Sei um pouco de tudo, procuro me informar, quando conversam eles me olham com se eu fosse um ET falando em WhatsApp, em e-mail, em arquivo virtual… É com tristeza que vejo que, só depois disso,  eles me aceitam como um ser normal…Enfio o bico nas  conversas deles, dou respostas coerentes, pergunto, questiono, erro muito, peço ajuda a eles, aprendo, e me divirto… Sinto que, só assim, os jovens  conseguem nos olhar como se não fôssemos peças de museu. Olham pra mim com respeito, com admiração, eu vejo isso! Pobre dos velhos que só ficam velhos!

“Pensam que somos de louça, que somos bobocas, que não entendemos direito as coisas… Mas, tiro proveito disso e rio muito em casa com tudo o que acontece no dia a dia: ninguém pergunta, como antes, se estou BOA. Só perguntam se estou BOAZINHA…  Concluo que, para eles, velho nunca pode estar bom por inteiro, só pela metade ou menos da metade…”

Como é lidar com a tecnologia? Celular, computador, redes sociais? A senhora quis se incluir, por livre e espontânea vontade, ou foi levemente pressionada pelos filhos?

Não fui pressionada a usar a tecnologia: tudo começou com a doença do BEM, meningite, que o deixou com algumas sequelas: lentidão de raciocínio, uma certa dificuldade nos movimentos físicos… O médico nos aconselhou o uso de computador para ele se exercitar e se distrair.  De tanto observar, aprendi… Com a falta definitiva do BEM, me dediquei mais ao uso do computador, mas aí, já sozinha, errando muito, tentando, descobrindo…Os filhos me dão dicas, me presenteiam com impressoras, câmeras, para conversar com os que estão longe, mas, pouco uso os assessórios mais modernos, fico nos básicos. De verdade, gosto mesmo é de uma boa caneta BIC, preta e uma folha de papel. Como vê, não fui pressionada,  eu percebi que estava dificultando a vida dos outros, por exemplo, para enviar minhas crônicas para os editores, para ser  secretária no meu trabalho. Percebi que estava sendo uma mala sem alça, tratei de ficar moderninha.

A senhora disse que não tem tempo de ficar velha…

Tendo tempo, ou não tendo tempo, fiquei velha… Não tive tempo foi de ficar parada, vendo a idade chegar. A velhice chegou, mas me encontrou tão ocupada, que percebeu que podia ir adiante, que eu já a havia percebido, que estava tudo bem, que se assentasse, tomasse um cafezinho que eu não podia parar para ficar lhe fazendo companhia: que me desculpasse, mas que precisava consertar umas roupas dos netos, fazer um sorvete para outro, escrever uma crônica encomendada pelo jornal, bordar um paninho de cozinha para o Clube Social, rezar minhas orações, aguar minhas plantas, tratar de minhas galinhas, ligar para meus filhos, dar aulas para o ENEM, ler meus livros, fazer as palavras cruzadas do jornal, ver minhas novelas (fazendo tricô, com as mãos desocupadas, não consigo assistir a nada….). A idade viu que eu não tinha mesmo um tempinho para ela, saiu de fininho e foi bater em outra freguesia…

“Não tive tempo foi de ficar parada, vendo a idade chegar. A velhice chegou, mas me encontrou tão ocupada, que percebeu que podia ir adiante, que eu já a havia percebido, que estava tudo bem, que se assentasse, tomasse um cafezinho que eu não podia parar para ficar lhe fazendo companhia (…)”

Para terminar: a senhora  acha que o gosto pela leitura foi uma atividade que a manteve saudável e capaz de continuar ‘não tendo tempo pra ficar velha’?

Sem leitura, eu estaria um caquinho, desdentada, muito feia, muito velha… A leitura me embala noutros mundos onde não há velhice, onde só há sonhos bonitos. A Leitura é minha PASÁRGADA…. Acrescento que livros de autoajuda me desconsertam, fico meio aflita, querendo seguir modelos que não combinam comigo. Estou tão cristalizada em meu jeito de ser que não consigo gostar de conselhos meio fora de mão, meio cansativos para mim… Me perdoem os autores de livros de autoajuda, acho muito lindo, muito bonito tudo o que dizem, mas estou antiga demais para mudar … Deu certo até aqui, vou continuar assim. Gosto muito, muito, das palavras do Papa Francisco, não porque sou católica, mas porque ele tem  aquela sabedoria simples, que não pressiona , só mostra um jeito melhor de caminhar…Sem testes, sem perguntas, sem cobranças… Gostaria – e gosto – de qualquer Pastor, qualquer autoridade que toque  meu coração com palavras…)

*embondo é palavra muito usada em Minas; significa ‘dificuldade, embaraço’ . 

¹ ‘Como era verde meu vale’ é um romance do escritor britânico Richard Llewellyn lançado em 1939.

²O livro ‘Confesso que vivi’ reúne as memórias do escritor chileno Pablo Neruda e foi lançado em 1974.

Dona Branca mantém um blog; conheça http://jeitomineirodeescrever.blogspot.com.br/

Foto de abertura da matéria: Gustavo Werneck/Estado de Minas

Quer saber mais sobre a dona Branca? Então assista a entrevista na qual ela fala sobre seus dois livros “Horas Mágicas’ e Água Doce’. 

Fonte: Portal Plena

Anuncie Aqui

Curta nossa fanpage no Facebook! Siga-nos no Twitter Siga-nos no Instagram

Copyright 2006 - 2017 - Todos os direitos reservados

CURTA A FANPAGE DO PORTAL DERIKS.NET

VISITANTE Nº: 1.301.925